Vamos Pra Onde?

/

Eu como montanhista: Via Ferrata e Breithorn

Suíça
Quel Furtado com o Matterhorn ao fundo

Se você me acompanha pelo meu insta @quelfurtado, provavelmente sabe que na última semana eu subi até o topo do incrível Breithorn, na região de Zermatt aqui na Suíça. A subida foi parte do projeto #PeakChallenge, cujo objetivo é inspirar mulheres a se aventurarem mais nas montanhas e na natureza. A ideia é mostrar que a gente consegue, que a gente é capaz, e o que mundo está aí cheio de belezas, só nos aguardando. O projeto foi organizado pelo Turismo da Suíça e pela Escola de Alpinismo da Mammut (uma marca suíça de roupas e equipamentos de esportes ao ar livre). Mulheres de diferentes partes do mundo e de diferentes faixas etárias foram convidadas a participar.

Nesse texto, compartilho com vocês essa experiência de 5 dias. Detalho desde a primeira aventura, escalando uma Via Ferrata em Andermatt, até finalmente a chegada a 4.200m de altitude, no cume do Breithorn, já na região de Zermatt.

Muito obrigada pelas fotos, Nicole Schafer. (Tivemos a honra de ter uma fotógrafa incrível com a gente nesse projeto)

 

Peak Challenge:

Eu nas montanhas da Suíça

Vocês provavelmente imaginam a minha felicidade quando recebi esse convite. Subir montanhas, fazer atividades ao ar livre, experimentar coisas novas e contribuir de alguma forma para mostrar que nós mulheres somos fortes, é comigo mesmo! Topei na hora 😉

Veja um pouquinho do que aconteceu nesses dias:

Planejamento da Mala

Para uma viagem dessas, uma mala inteligente é essencial. Separei uma mochila de 32L para levar minhas roupas, o que foi suficiente. Gosto muito desse modelo da Patagônia porque ele abre por completo, como uma mala – e não apenas a parte de cima da mochila. É ele que uso para essas aventuras.

Levei:

  • tênis de trilha com solado rígido e cano mais alto (estilo botinha),
  • casaco corta vento (o meu é da Mammut, amo!),
  • fleece (o meu é da marca Norrona, mas também recomendo esse aqui da The North Face),
  • casaco soft shell (uso desde sempre o Thermoball, ele é leve e quentinho e pode ser guardado no próprio bolso),
  • calça de trilha,
  • meias próprias pra trilha,
  • pescoceira e
  • luvas

 

Com tudo pronto, peguei o trem desde Lucerna e segui para Andermatt. Foram aproximadamente 2 horas de viagem (CHF38).

rota deLucerna a andermatt

Minha hospedagem foi no Radisson Blu Andermatt. Um hotel super moderno, com SPA, piscina e um restaurante delicioso. Por lá jantei e conheci o grupo e nossa guia Caro North.

Dia 01 – Via Ferrata/ Zermatt Glacier Express)

Depois daquele café da manhã caprichado (sério.. queria ter tido a manhã inteira pra curtir o café da manhã do hotel, rs) nossa primeira parada foi na loja da Mammut. Lá pegamos nosso equipamento de montanhismo para a atividade do dia. Vamos subir a Via Ferrata Diavolo, localizada no cânion Schöllenen.

Para a Via Ferrata, precisamos de cadeirinha de escalada, luvas e capacete. Fiquei super animada, pronta pra aventura 🙂

preparada em Andermatt para Via ferrata

Via Ferrata

Via Ferrata é um caminho definido e preparado em partes íngremes de montanhas para facilitar a experiência de escalada. Ela conta com cabos de aço (em que vc se pode se manter preso, o tempo todo), pinos de ferro e algumas vezes até degraus. Por esse motivo, são super recomendadas para iniciantes.

Vias Ferratas surgiram há muuuuito tempo, durante a 1a Guerra Mundial, na Áustria. Eles usavam os cabos e essa “estratégia” de facilitar o acesso ao topo de montanhas pra melhorar a distribuição de suprimentos e fazer alguns deslocamentos também. Na Suíça, as Vias Ferratas chegaram nos ano 90 – e ficaram famosas rapidinho. Aqui é o país das montanhas, né?!

Existem várias por aqui, e elas são categorizadas por níveis. A Diavolo, em Andermatt, é nível fácil/moderado, recomendado para iniciantes.

Caminhamos até o início da Via Ferrata desde o Radisson Blu Andermatt. Foram cerca de 10 minutinhos até lá.

O início é a 1.405 m de altitude, na Ponte Diavolo, praticamente em frente ao memorial Suvorov. (Em 1799, a tropa de Napoleão lutou, nessa ponte, uma difícil batalha contra os russos, comandados pelo General Suworow. Esse monumento, esculpido nas rochas do desfiladeiro, homenageia os soldados russos abatidos).

A Via Ferrata começa logo atrás da placa de indicação. Caminhamos um pouquinho e logo vemos os cabos de segurança, onde efetivamente começamos a escalar.

A subida é incrível. O início é um pouco desafiador, na verdade. Não sei se por ter sido minha primeira vez fazendo algo parecido, mas confesso que em um momento pensei “uau, isso é pra iniciantes mesmo?! rs..”. Mas logo essa sensação passou e a subida ficou bem mais tranquila. Nosso grupo estava super bem, sem medo, e só curtindo a paisagem.

Começamos unidas à guia com uma corda de segurança extra, mas depois seguimos presas “apenas” nos cabos de segurança da Via Ferrata. A segurança já é extremamente suficiente e ficamos mais confortáveis assim.

A Via Ferrata Diavolo é realmente muito bem planejada. E a manutenção aqui na Suíça é fora de série. Eu tava toda feliz por vivenciar essa atividade nova 🙂

quel furtado na Diavolo, em Andermatt

Passamos por partes super íngremes em que realmente subimos escadas, por partes não tão inclinadas em que colocávamos os pés em pequenos ferros presos à pedra e por partes mais planas em que caminhávamos normalmente.

Características da Via Ferrata Diavolo:

  • 700m de cabo de segurança preso às pedras
  • 265 pinos de ferro (para mãos e/ou pés)
  • 2 escadas presas à partes íngremes das rochas

 

 

Chegamos lá em cima, no topo da Tüfelstalboden (1860m de altitude) após umas 2 horas de subida.

Quem já tem mais experiência ou vai em grupos menores, costuma subir em 1 hora. São 450m de aclive do início da Via Ferrata até o final. Ali, chegamos na bandeira da Suíça e aproveitamos para fazer umas fotos 🙂

 

A descida de volta a Andermatt é por trilha mesmo – e dura cerca de 1 hora. Não se desce pela Via Ferrata, dizemos que ela é uma via de mão única 🙂

O caminho é bem bonito também!

 

Se você quiser se aventurar nessa Via Ferrata, fale com a empresa Alpina Sport. Eles disponibilizam guias (fico devendo o valor, sorry!) ou apenas o aluguel do equipamento (à partir de CHF10).

 

Bom, nós descemos direto para o nosso trem. Estávamos em cima da hora de pegar o incrível Glacier Express para um viagem de trem panorâmico de Andermatt a Zermatt.

rota de andermatt a zermatt de Glacier Express

Glacier Express

A Suíça é famosa pelas viagens de trem, principalmente em trens panorâmicos. O

Glacier Express é um deles. Ele é – orgulhosamente – o trem expresso mais lento do mundo. Sua rota completa é de St Moritz a Zermatt. A viagem é pra ser curtida com calma e indicada pra quem tem disponibilidade (e interesse) em passar um dia inteiro (bom, 8 horas) dentro de um trem. Eu recomendo 🙂

Nós fizemos apenas parte desse trajeto – o que é perfeitamente possível.

Glacier Express com suas janelas enormes

Aproveitei para trabalhar um pouco, curtir a paisagem e almoçar.

Existem 3 categorias (ou classes) no Glacier Express: Glacier Express Excellence Class, First Class e Second Class. Nós viajamos de First e pedimos o menu de almoço. Recomendo, mas se prepare que as porções são super fartas. Dá pra dividir um prato com alguém.

A paisagem ao longo da viagem é linda demais. Passamos por vales, vimos cachoeiras… Uma pena que o tempo estava nublado e com bastante névoa. Isso atrapalhou um pouco o visual das montanhas. Mas mesmo assim, foi lindo!

Chegando em Zermatt, fizemos o check-in no BaseCamp Hotel – um hotel simples, 3 estrelas, mas com quartos amplos, varanda e vista linda pro Matterhorn.

Ah… Zermatt é linda demais <3!

 

Dia 02 – Zermatt / Rifugio Guide del Cervino

O dia mais uma vez começou cedo. Fomos até à loja da Mammut, em Zermatt, para pegar nosso equipamento de montanhismo na neve e gelo.

Recebemos algumas instruções de segurança e exploramos a loja um pouquinho. Vocês sabem que sou apaixonada por roupas e itens esportivos né, rs! Acabei comprando uma mochilinha de 20L para trilhas, bike, etc. Ela tem uma regulagem ótima para se ajustar a pessoas de tamanhos diferentes, então eu e Marc podemos usá-la.

Para a subida ao Breithorn, precisamos de cadeirinha de escalada, Crampons e Machado de gelo.

 

equipamentos que usamos para subir o Breithonr

 

A cadeirinha é usada para que possamos ficar todos unidos por corda, por motivos de segurança. A subida ao Breithorn não é uma escalada em si – é mais um hike na neve com subidas íngremes -, mas essa união do grupo por corda nos ajuda a subir no mesmo ritmo e nos dá a segurança de estarmos “presas” ao guia. Ninguém fica pra trás, subimos todos juntos 🙂

Depois, curtimos um pouquinho Zermatt antes de seguirmos rumo ao Matterhorn Glacier Paradise. Vamos rumo à neve! O ponto de partida para a subida ao Breithorn é lá – e é lá também que está o refúgio em que dormiremos essa noite.

Subindo para o Matterhorn Glacier Paradise

A 1a gôndola para subir ao Matterhorn Glacier Paradise fica pertinho do centro de Zermatt, talvez uns 15 minutos de caminhada desde a estação de trem. Chegar ali é fácil: basta caminhar até a igreja, atravessar a ponte da igreja e seguir as placas indicativas. A gente sobre praticamente margeando o rio.

Pegamos a terceira gôndola já Trockener Steg, a 2939m de altitude. Vamos finalmente rumo a Klein Matterhorn (que foi renomeado para Matterhorn Glacier Paradise).

Nosso plano pra hoje é descer um pouquinho rumo à nossa hospedagem (bem na divisa da Itália com a Suíça).

Essa descida já é nosso treinamento para o dia de manhã.

O maior desafio é descer partes bem íngremes da montanha, com gelo e neve. Para chegarmos na cabana, precisamos descer uma pista de ski super íngreme (em torno de 300m verticais), então já colocamos o crampons nos pés e descemos com calma, ziguezagueando até a parte plana.

Eu tive bastante dificuldade. Não entendia como o grupo todo já estava lá embaixo e eu estava demorando tanto, rs! Mas a guia percebeu que os crampons estavam grande demais para os meus tênis. Foi só ajustá-los melhor que consegui descer super bem. Nas montanhas, não subestime a importância de um bom guia.

Caminhamos mais um pouquinho e subimos por volta de 100m para chegarmos ao Rifugio Guide del Cervino. Ao todo, acho que caminhamos em torno de 2km na neve.

O refúgio está localizado no Valle d’Aosta, bem na fronteira da Suíça com a Itália, a 3.480m de altitude. Ele é muito procurado por montanhistas e funciona como um alojamento de quartos coletivos com 5 ou 7 camas. São 70 camas no total. A noite normalmente custa 70 euros por pessoa e inclui jantar e café da manhã. Tive uma experiência semelhante a essa em Verbier, quando fiz um tour de bike, também dormindo em refúgios. A Suíça é cheia de cabanas de montanhas com essa proposta. Acho incrível!

refúgio guide dle cervino

Deixamos nossas mochilas no quarto e descemos para o jantar. Num estilo bem italiano, a entrada foi massa e o prato principal carne com vegetais. Estava tudo uma delícia.

 

Dia 03 – Breithorn

O despertador tocou as 4:40h da manhã. Eu já estava acordada há um bom tempo. Confesso que foi uma noite difícil. O calor no quarto era intenso. A cabana tem um aquecedor tão bom que é até forte demais!

Nosso café da manhã começou as 5h; nossa caminhada começava às 6h. Queríamos começar a subida ao Breithorn bem cedo, antes do primeiro teleférico chegar no início da “trilha”. Assim, teríamos mais chance de chegarmos sozinhas no topo.

Abaixo, deixo um mapa do trajeto que faremos.

mapa do refúgio até breithorn

Estávamos todas tão animadas que às 6 em ponto, estávamos saindo da cabana. Colocamos nossos crampons, prendemos o martelo de neve na mochila e seguimos. A guia nos entregou alguns trekking poles (bastões de caminhada) para auxiliar na nossa jornada.

06:19h iniciamos nossa jornada. Uma descida leve e uma parte plana nos separava da pista de ski super íngrime que havíamos descido no dia anterior.

UFA!!! Pra mim essa subida foi a parte mais difícil de todo o dia, rs! Muito íngrime! E acho que eu acelerei demais. Deveria ter ido no lema devagar e sempre. Era 07:05h quando terminamos esse primeiro trecho. Ainda faltava mais uma subida (não tão íngrime essa vez) para cegarmos na área da gôndola do Klein Matterhorn.

A caminhada rumo ao topo do Breithorn começa mesmo aí, em Klein Matterhorn (ou Glacier Paradise), na chegada dessa gôndola.

Esse caminho é WOW!!!! – e garante uma vista incrível do Matterhorn.

Continuamos subindo e às 07:45h estávamos no início oficial da “trilha” para o Breithorn.

Colocamos as cordas e segurança e seguimos atravessando o Breithorn Plateau. Eu estava super animada e super feliz! Que experiência incrível!!!!

07:58h, começamos efetivamente a jornada oficial rumo a 4.163m de altitude.

Fizemos apenas uma parada e seguimos depois por uma subida mais íngrime em direção ao topo. O grande truque da subida foi ir em zigue-zague e com muita calma. Como estávamos todas presas por uma corda à guia, tínhamos que respeitar o seu ritmo.

Em um momento até me senti ansiosa por estarmos indo tão devagar. Mas percebi o quanto isso foi essencial. Eu não senti exaustão em momento algum. Não fiquei cheia de suor (o que acontece muito em dias muito frios na montanha quando fazemos exercícios muito intensos – e é péssimo!) e pude seguir tranquilamente, me sentindo super bem mesmo numa altitude tão elevada. Mais um ponto alto de fazer esses desafios com guias de montanha.

09:48h chegamos, debaixo das nuvens, na subida final e às 10:20h, com bastante neblina, estávamos no topo. 

A neblina não influenciou em nada, nada, nada nossa felicidade.

De qualquer forma, queríamos ver a vista de lá de cima. Queríamos ver o panorama dos alpes, ver o Matterhorn e apreciar a imensidão de toda essa parte nevada do Wallis. Então, foi lindo quando o tempo abriu apenas 3 minutos depois! O clima nas montanhas varia demais – por isso é sempre muito importante ir preparado.

quel furtado no Breithorn

Olha eu aí, no topo do Breithorn, com o Matterhorn ao fundo.

quel furtado com o Matterhorn no fundo

Ficamos por lá um pouquinho, apreciando a paisagem e comemorando essa conquista. As nuvens ainda existiam, abaixo de nós, mas elas passavam bem rápido. Assim, mesmo sem termos aquela visibilidade completa da cadeia de montanhas, conseguimos ver bastante coisa.

Alguns poucos minutos depois, as nuvens começaram a subir e resolvemos descer. Percebemos que a descida seria, também, na neblina.

Era 10:53h quando começamos a descida. 

 

Quer fazer essa subida também?! Você pode! Acesse o site da empresa Zermatters, recomendada pelo próprio turismo de Zermatt. O valor é CHF190 por pessoa. O grupo tem um mínimo de 3 pessoas e máximo de 6. Se as condições não estiverem muito boas, o máximo para cada guia é de apenas 4 pessoas. Com um guia só para o seu grupo, o valor é CHF590 (de 1 a 3 pessoas – cada pessoa adicional paga CHF40). Você também precisará pagar os teleféricos ida-e-volta (CHF114 p.p.). Saiba mais clicando aqui (em inglês).

 

Acredito que, para descer, o desafio é ainda maior. Há muito gelo e a montanha é bem íngrime. Temos que ir com atenção e cuidado e, sempre, sem pressa.

Alguns minutos depois paramos para um lanche rápido (leia: comer uma barra de chocolate, eheh) e para bebermos água. Reorganizamos as cordas e seguimos. Na subida, as guias vão à nossa frente. Já na descida, elas vão atrás de nós, pra garantir nossa segurança.

Caminhamos ao todo em torno de 8k e chegamos de volta ao teleférico às 12:24h, 6 horas após o início da jornada.

A descida durou apenas 1h30. Passou tão rápido, rs!

Mas gente… que experiência única!! Nossa, recomendo 100% pra qualquer pessoa que já tenha feito trilhas longas e/ou tenha alguma experiência com atividades físicas ao ar livre que demandam bastante esforço.

O Breithorn é um dos picos nevados, de 4.000m de altitude, mais fáceis de ser explorados aqui na Suíça (uma outra opção semelhante seria o Allalinhorn). A vista lá de cima é mágica, um panorama dos picos mais altos do Valais, incluindo, claro, o Matterhorn. Vemos muitos guias e iniciantes se aventurando no montanhismo fazendo esse percurso. Se você gostaria de experimentar um hike no gelo/neve na Suíça, recomendo o Breithorn.

Bom, chegamos então na estação Klein Matterhorn, onde pegamos o teleférico de volta e retornamos para a vila de Zermatt. E, assim, acabou nossa viagem! Dia de voltar pra casa cheia de experiências novas na mala!

Peguei o trem rumo a Lucerna, e vim embora 🙂

Foi mágico!

grupo feliz no topo do Breithorn

 

Deixe o seu comentário

Post Anterior
Zurich: Um Guia Completo
Próximo Post
Gruyères